quinta-feira, dezembro 01, 2005

Na rota dos espetáculos


Na primeira vez eu (Júnior) estava lá com o Rogério,
a segunda vez foi no Olímpico (foto) e nenhum dos dois esteve


Por Rogério Nunes

Quem freqüentou a vida cultural de Porto Alegre das décadas 60 e 70 viu o impacto que uma ditadura pode causar na vida cultural de um país. Por diversos motivos, a maioria dos teatros de Porto Alegre estava fechada, do imponente São Pedro ao minúsculo de Teatro de Câmara.

Quem freqüentou os espaços culturais da cidade naqueles anos necessariamente conheceu o Teatro Leopoldina, o principal da cidade em um período onde os espaços culturais do país eram censurados ou fechados “para reformas " pelo regime militar.

Foi no Leopoldina que descobri o que era teatro infantil. Eu assistia com uma freqüência invejável a shows de marionetes e dramatizações das histórias infantis nas manhãs de domingo, uma rotina de mais ou menos um domingo por mês. O pai colocava a mim e ao Ronaldo na C-14 e nos levava ao Leopoldina, onde a bilheteira nos deixava entrar gratuitamente para assistir a peça, antes de sairmos para almoçar com ela. Assim comecei a freqüentar os espetáculos.

A minha vó Alice era a bilheteira do Leopoldina, e o foi até o seu fechamento no final da década de 70. Durante a adolescência assisti o “Vivendo a Vida de Lee, um musical coletivo que lançou o Nelson Coelho de Castro e mais um monte de gente que viria a se intitular mais tarde de Música Popular Gaúcha, apresentado pelo Júlio Fürst quando ainda trabalhava na Rádio Continental AM (1120). Houve também a Baby Consuelo, na segunda parte do show ela apresentava o maridão guitarrista, Pepeu Gomes. O último e inesquecível, assisti sentado no corredor por falta de lugar: MPB-4, lançando Kleiton e Kledir nacionalmente com Vira Virou.

Quando o Leopoldina fechou, o empresário que tinha a concessão reabriu o Teatro Presidente e para lá migrou a nossa franquia, que durou pouco tempo, pois a vó logo se aposentou. Ainda deu para assistir o show do Agildo Ribeiro e Rogéria acompanhado do meu pai. Eu estava com ele na última vez que foi ao teatro. Inesquecível inverno de 1982.

Na mesma época, acostumei-me a freqüentar o Projeto 6 e meia na UFRGS. João do Valle foi fantástico com “Carcará” e a menina que só quer, só pensa em namorar. Teve outro em que a platéia subiu no palco (eu incluído) para acompanhar Zé Ramalho na peleja do diabo contra o dono do céu. Aquilo era demais! Época em que eu matava a aula do pré-vestibular nas quartas-feiras para curtir o Projeto 6 e meia na UFRGS.

Apesar de matar algumas aulas, fui aprovado no vestibular da UFRGS e comecei a variar os endereços dos shows. Teve o Nelson Coelho de Castro na Casa dos Estudantes da UFRGS durante uma greve, o Walter Franco (quando ainda tinha uma banda real) na PUC, Gilberto Gil e Jorge Mautner, quando o Leopoldina reabriu com o nome de OSPA, entre muitos outros.

Teve ainda os shows no Ginásio ‘daquele’ clube às margens do Guaíba. Confesso que era resistente por dois motivos principais: não gostava dos proprietários do local e sempre achei o som ruim. Para quem estava acostumado com teatro, o Gigantinho sempre foi um ruído. Mas as bandas estrangeiras só iam para lá e foi onde assisti nos anos 70 ao lendário show do Santa Esmeralda: transbordou gente (muitos ficaram na rua com ingresso ameaçando quebrar tudo para entrar e a brigada distribuiu geral), não se sabia se era realmente a banda que estava no palco (boatos diziam que não era) e estourou um quebra-pau histórico na arquibancada, onde um cara sozinho e desarmado encarou 5 brigadianos e venceu. Das músicas, não lembro.

Foram muitos shows no Gigantinho: Milton Nascimento, 14-Bis, Santana, Jean-Luc Ponty, Silver Convenction, Eric Clapton, entre outros. E ainda teve aqueles que todo o mundo assistiu, menos eu: Legião Urbana, Roberto Carlos, Ray Conniff, Liverpool Express, B.B. King, Village People e muitos outros.

Teve também o circuito dos bares. No início dos anos 80, tínhamos uma turma que se reunia nos finais de semana e ia para algum com música ao vivo: Mari, colega da Enfermagem; Xandão, o músico; Nani, a maluca que fez Engenharia Civil; Gustavo (Dr. Bichinho), pernambucano e torcedor do Náutico que foi comigo assistir a um Grêmio e Náutico no Olímpico (o Grêmio fez 2 a 0) enquanto fazia residência na Pinel; Walter, o psiquiatra que era ‘expert’ no Cometa de Halley; Richard, o informático; entre outros (houve ocasiões em que tivemos que arrumar mesa para 20 pessoas).

Acabamos por nos fixar no ‘Vinha D’alho’, Bento Gonçalves quase esquina com João Pessoa. Viramos atração do bar por fazer um coral com uma competente 2ª voz, modéstia à parte. Tivemos tratamento VIP no aniversário do bar e homenagem especial quando eu e a Márcia noivamos.

No circuito dos shows, o mais diferente foi o de uma banda porto-alegrense que fez umas duas ou três tentativas de espetáculo. Assisti uma delas, e foi inesquecível. A banda, cujo nome era “Hálito de Funcho”, fez um show no Planetário da UFRGS no início dos anos 80. A platéia ficava respirando incenso, escutando o som instrumental da banda e vendo estrelas. Viagem total.

Depois teve os espetáculos em São Paulo, no Credicard Hall (Buddy Guy), Via Funchal (Benjor Acústico e Caetano com Mautner), Directv Music Hall (Festival de Blues), Bourbon Street (Blue Jeans), etc. Enfim, vários, incluindo os de Eric Clapton e Roger Waters no Estádio Pacaembu e Nuno Mindelis no Shopping Anália Franco.

O memorável foi em 1993 no SESC-Pompéia. O Romeu, ex-sócio do pai em Sant’anna do Livramento (RS), pediu que eu inscrevesse o filho dele no vestibular da USP. Através de procuração, inscrevi o Carlos Alberto, homenagem ao capitão do tri no México, que ficou lá em casa para as provas.

Na véspera, batemos um papo sobre música e ele tentou me convencer que só gostava de maluco. Avançamos o papo e descobri que para ele, maluco era “heavy metal”. Então, provoquei-o a assistir ao show de um maluco que não fosse “metaleiro”: Walter Franco. O Carlinhos nunca tinha ouvido falar dele, mas não tinha nada para fazer na véspera do vestibular e diante do preço baratinho, topou.

Walter Franco e a banda virtual, um show peculiar. O Walter tocava os seus clássicos, como “Canalha” por exemplo, e na hora dos solos de bateria ou guitarra ele virava para trás e regia a banda. Detalhe: não havia ninguém no palco além dele. No final, ele apresentava os músicos da banda virtual sem dizer os nomes, obviamente, e a platéia aplaudia alucinadamente. Peculiar, deveras peculiar.

O Carlinhos ficou convencido que existe maluco fora do “heavy metal” (“Pô, o cara é muito doido! E a banda não veio...”). Em 2003, o Thiago assistiu Walter Franco e a banda virtual no SESC-Consolação e chegou à mesma conclusão: doido!

Acho que ainda estarei na platéia em muitos espetáculos como os de Jorge Mautner (que sentou na minha mesa para um papo num bar da Vila Madalena-São Paulo, em 1994, que acabou virando sessão de autógrafos), A Cor do Som (Ginásio de Tramandaí lotado), Alceu Valença (Brique da Redenção), Tangos e Tragédias (cantando com a platéia o Copérnico na Praça da Matriz), Marília Pêra (cantando divas no Teatro São Pedro), Bebeto Alves, Nei Lisboa, Discocuecas, Planeta Atlântida (onde encontrei com os meus alunos da UFSM e até hoje recebo e-mails recordando), um regional tocando chorinhos na Praça Benedito Calixto (São Paulo) num sábado à tarde, Leco Alves (em vários lugares, da Igreja São Sebastião ao Teatro Renascença), ou levando o Rafael na chegada do Papai Noel no Estádio Olímpico, com direito a Xuxa e Trapalhões.

Mas tudo começou nas manhãs de domingo no Teatro Leopoldina, com uma bilheteira inesquecível.

1 Comments:

Anonymous Anônimo said...

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10:39 AM  

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